Eficiência Energética: Que bicho é esse?

A eficiência energética é um assunto que já entrou na pauta dos países desenvolvidos há muitos anos. Se você ainda não sabe o que é isso, a leitura do texto abaixo é fundamental.

Eficiência energética: quando menos é mais

Por Cristina Tavelin, da revista Ideia Socioambiental

Investimentos em redução do uso de energia ganham força na perspectiva de uma economia de baixo carbono.

O temor crescente relacionado às mudanças climáticas e a necessidade de redução da dependência de combustíveis fósseis tem motivado não apenas o avanço na busca por alternativas de energia, mas também o seu uso mais eficiente. O reforço ao investimento em eficiência energética se dá até mesmo em países com recursos naturais abundantes, como o Brasil, que possuem um vasto histórico de desperdício de energia. O chuveiro elétrico é o exemplo mais notório. Presente na maioria das casas brasileiras, ele representa cerca de 10% da demanda nacional de energia.

“O Brasil tem um Produto Interno Bruto elevado e um uso de energia significativo. A questão é avaliar o abastecimento dos segmentos da economia e verificar onde há espaço para ganhar em eficiência energética, utilizando menos energia para produzir o mesmo valor de PIB”, avalia Roberto Vellutini, diretor de Infra- estrutura e Meio Ambiente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Apesar de ter ganho destaque nos últimos anos, o conceito de eficiência energética ainda está cercado de dúvidas. A economia de energia não representa, por exemplo, uma nova fonte, na medida em que a capacidade poupada acaba sendo destinada para outros fins. De acordo com Ricardo David, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), o processo de eficiência deve reduzir a necessidade de novas fontes e não substituí-las. “Com a eficiência energética, o crescimento da oferta se dá em um ritmo mais lento. Se é possível reduzir a quantidade de energia que alimenta o desperdício e o parque gerador continua o mesmo, obviamente o restante pode ser disponibilizado para uma nova demanda”, avalia.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), cada dólar adicional investido em eficiência evita o gasto de US$ 2 no investimento em mais suprimentos energéticos para o planeta. Reduzir custos operacionais é, portanto, interessante tanto para governos quantos aos negócios. Isso explica o crescente interesse, entre as empresas, pelo desenvolvimento de tecnologias mais eficientes. “É uma questão simplesmente de conscientização sobre as vantagens do uso mais eficiente de energia, que ainda não são disseminadas. Por outro lado, existe certa resistência das distribuidoras, pois muitas ainda encaram a redução de energia como uma ameaça. Como a ação diminui a receita no curto prazo, elas não conseguem ver os benefícios para o setor como um todo, inclusive para os consumidores”, avalia Osório Brito, diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE).

Setor privado busca consultoria em eficiência

Cada vez mais corporações recorrem a padrões sustentáveis de produção. Nesse esforço, tem sido comum buscar o apoio de empresas de consultoria especializadas em eficiência energética, com quem passam a dividir o risco do investimento em novas tecnologias.

Para David, da Abesco, o setor de eficiência energética enfrenta muita defasagem tecnológica. E o principal desafio para superar essa condição é melhorar o conhecimento sobre o assunto entre profissionais de diversas áreas. “Se existe uma tecnologia mais eficiente é preciso conhecê-la, saber de suas vantagens e compreender os seus resultados financeiros. Isso se choca um pouco com a cultura ainda existente no Brasil de resultados no curto prazo e com a formação dos nossos engenheiros e administradores, carentes em análise econômica de projetos desse tipo”, avalia.

Ainda segundo David, como a indústria representa quase 60% de todo o consumo energético no País, tornar mais eficientes o acionamento e o controle de motores elétricos, bem como os sistemas de iluminação e ar condicionado, são boas oportunidades para economizar energia no Brasil.

Edifícios Verdes – economia chega aos elevadores

Outra oportunidade se verifica no setor de construções. Com a disseminação da certificação Green Building para construções sustentáveis, empresas como a Atlas Schindler passaram a identificar na área de eficiência energética uma oportunidade de negócio. Por meio da substituição do sistema de tração tradicional por um mais moderno, as engrenagens e a construção da casa de máquinas não são mais necessárias. O pequeno sistema e o painel de controle são acomodados na parte superior da própria caixa e integrados à porta de pavimento do último piso. Somada às mudanças no acionamento e no controle das máquinas, essas características dos novos modelos geram uma grande economia.

De acordo com Fabio Mezzarano, diretor de Novas Instalações e Modernizações da Atlas Schindler, os elevadores antigos utilizavam até 10 HPs (ou ‘cavalos de força’ — unidade usada para medir a força de motores). Hoje, essas máquinas consomem por volta de 4,5 HPs. “É uma redução significativa em termos de consumo de energia, que pode chegar a até 70% em comparação com as soluções anteriores”, ressalta o diretor.

O sistema, desenvolvido pela matriz suíça da empresa, atende a demanda mundial crescente do Green Building, uma tendência muito forte na Europa, agora em expansão também no Brasil. “O Green Building já se tornou um pré- requisito na construção. Nos últimos dois anos houve uma mudança importante no País, e a preocupação com a falta de energia cresce a cada dia”, destaca o diretor da Atlas Schindler.

Nos próximos quatro anos, a empresa planeja expandir esse modelo de elevador mais eficiente para outros mercados — atualmente a tecnologia está disponível para prédios comerciais e residenciais de médio porte.

Co-processamento e reciclagem também são alternativas

Para economizar energia e dar um fim ambientalmente responsável a diversos tipos de resíduos, a Resotec, braço da Holcim, trabalha com o co-processamento. Por meio dele, os resíduos de outras indústrias são transformados em um material homogêneo, utilizado posteriormente como combustível para os fornos de produção de cimento, que consomem grandes quantidades de energia. “No Brasil e no mundo chegamos à substituição de 15% dos combustíveis tradicionais adotando o co-processamento”, ressalta Edmundo Ramos, gerente da Resotec.

Outra possibilidade que se mostra bastante eficiente para a redução do consumo de energia é a reciclagem. A Novelis, fabricante de laminados de alumínio, investe nesse processo, e transformou em 2007 cerca de 107 mil toneladas de alumínio reciclado em novas chapas do material, a partir da captação de latas do mercado local e daqueles para onde exporta. Para produção de uma tonelada de alumínio são necessárias cinco toneladas de bauxita, processo que pode ser evitado com a reciclagem, gerando uma economia de 95% da energia elétrica para a produção do metal primário.

TI verde

A idéia de reduzir o consumo de energia também vem ganhando força no segmento de tecnologia de informação. Em 2007, a IBM anunciou o investimento de US$ 1 bilhão por ano no desenvolvimento de novos produtos e serviços de TI que ajudam a tornar mais eficiente o uso de energia da própria empresa e de seus clientes.

A companhia identificou a necessidade de adaptação em 1997, ao perceber que seus data centers consumiam grandes quantidades de energia. Desde então, começou a realizar um trabalho específico para a área. Nos últimos dez anos, diminuiu o número de data centers mundiais de 155 para apenas oito. “A empresa fez sua lição de casa. E com o resultado positivo obtido, se deu conta de que tinha algo a oferecer para o mercado e para os clientes que também já começavam a apresentar essa nova demanda”, constata Adriano Barreto, executivo de Desenvolvimento de Serviços da IBM Brasil.

Com o projeto denominado Big Green, que abrange o diagnóstico, a construção, a virtualização (que inclui novos sistemas como os de tele-presença), a gestão e a refrigeração de espaços, a empresa pretende duplicar a capacidade operacional dos centros de processamento nos próximos três anos, sem aumento no consumo de energia. Com isso, a IBM lançou luz sobre uma questão que vinha tirando o sono dos profissionais de TI. Tendo atingido a capacidade total dos data centers, muitas empresas viram sua possibilidade de crescimento limitada e se encontraram diante da necessidade de fazer novos investimentos para mudar esse quadro. Mas, com a otimização desses centros de processamento, a construção de novos espaços deixou de ser necessária e o consumo de energia pode ser muito mais eficiente — chegando a gerar uma economia de 25% a 50%.

A eficiência energética também é um critério valorizado pela Cisco no desenvolvimento de novos produtos. Um exemplo está na área de roteadores: o seu desempenho aumentou 20 vezes, comparado ao de alguns anos atrás, com mesma quantidade de energia. “A partir do momento que se cria um produto mais potente, que ao mesmo tempo não necessita de mais energia, isso auxilia na redução do consumo”, avalia Rodrigo Uchôa, diretor de Desenvolvimento de Negócios da Cisco Brasil.

Políticas públicas incentivam busca por eficiência

Fatores como industrialização e mudanças no comportamento do consumidor geralmente são associados ao aumento da demanda por energia nas economias emergentes. Ainda que o seu consumo total continue abaixo das nações industrializadas, os países em desenvolvimento apresentam taxas cada vez mais altas de consumo.

Segundo o estudo Energizando o desenvolvimento sustentável – conceitos e projetos, da Agência de Cooperação Alemã GTZ, estima- se que, caso uma ação política drástica não seja tomada, o consumo de energia no mundo aumentará cerca de 50% até 2030, comparado a 2005. E os países em desenvolvimento somarão dois terços desse aumento. “Acredito que faltam políticas públicas para incentivar uma maior difusão e adaptação de eficiência energética nos processos. Impor restrições e incentivar também seria útil. Por exemplo, se um consumidor compra um produto mais eficiente, ele pode receber incentivos tributários”, propõe Vellutini, do BID.

Estabelecer e implementar programas governamentais de fundos requer conhecimento especializado e processos transparentes. No Brasil, uma iniciativa bem-sucedida foi o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL), que resultou em R$ 20 bilhões de economia em expansão dos suprimentos energéticos. “Experimentamos talvez um dos maiores programas tecnológicos na área de eficiência, o Reluz, da Eletrobrás, que realizou uma transformação significativa na iluminação pública brasileira. Não temos toda a capacidade eficiente hoje, mas em um tempo curto renovamos aproximadamente cerca de 70% do parque”, avalia David, da Abesco.

Desafio para governos, empresas e indivíduos

Em 2001, a crise energética que acometeu o País (conhecida como apagão) levou empresas, consumidores e governos a repensarem suas ações em relação ao consumo de energia. Atualmente, o crescente preço dos combustíveis também se tornou uma grande preocupação.

De acordo com Brito, do INEE, houve uma grande conscientização na época, que acabou perdendo força devido à falta de políticas adequadas. “Observou-se uma redução de quase 30% no consumo de energia por algum tempo. Mas depois essa economia acabou sendo consumida. Hoje voltamos para a mesma situação anterior”.

Criar tecnologias mais eficientes e economizar energia são medidas fundamentais para a mudança estrutural exigida por uma economia de baixo carbono. Essa foi uma das questões levantadas na Conferência sobre Competitividade e Eficiência Energética, realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no final do ano passado. No Brasil, segundo Vellutini, existe muito potencial para o ganho em eficiência energética. “É necessário estender o conceito para edifícios e iluminação públicas, onde há espaço para a implantação de estruturas mais eficientes.”

De acordo com Uchôa, diretor da Cisco, a movimentação do Brasil na área de eficiência energética cresceu consideravelmente nos últimos dois anos. Em sua opinião, o grande desafio se dá no âmbito dos indivíduos. “Seja através da economia de combustível, evitando uma viagem de carro ou de outras atitudes, acredito que empresas devem se esforçar para conscientizar as pessoas”, avalia.

Em países emergentes, a pressão está crescendo para aumentar os níveis de eficiência energética. Segundo dados da Organização Latino-Americana de Energia, a América Latina e o Caribe poderiam reduzir o consumo energético em 10% até 2018 se houvesse mais investimentos em tecnologia e equipamentos mais eficientes. O custo de US$ 17 bilhões para atingir essa meta resultaria na redução de consumo de 143 mil gigawatts/hora.

Para atender a essa demanda por meio das tecnologias convencionais, os investimentos saltariam para US$ 53 bilhões, montante necessário para construção de 328 usinas termelétricas a gás natural. Segundo David, em todos os países em que a eficiência energética avançou (Canadá, EUA, Alemanha, Espanha), o Estado teve importante papel de indução. No Brasil, criou-se a lei nº 9.991, em 2000, que obriga concessionárias e permissionárias de energia a aplicar, anualmente, o montante de 0,75% de sua receita líquida em pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico e 0,25% em programas de eficiência energética. Porém, levando em conta a tendência de crescimento do consumo energético na América Latina — que precisará de 75% a mais de energia em 2030 em relação a 2004, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE) — ainda há muito a ser feito.

Fonte: Envolverde/Revista Idéia Socioambiental

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Convenção do Clima: O que pode mudar na sua vida?

Para aqueles que ainda não estão antenados nas mudanças climáticas e nas negociações internacionais sobre o assunto, o artigo abaixo é de leitura fundamental.

COP-15: o que pode mudar na sua vida
Thays Prado – Edição: Mônica Nunes
Fonte: Planeta Sustentável – 30/09/2009

A 15ª Conferência das Partes, da ONU, vai reunir os negociadores de cada país membro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, para a definição de um acordo global que controle as mudanças climáticas e garanta a sobrevivência desta e das gerações futuras. Tudo isso parece muito distante de sua vida diária? Pois saiba que as decisões tomadas em Copenhague podem afetar, e muito, o cotidiano de cada um de nós.

De 7 a 18 de dezembro, os 193 países membros da UNFCCC – Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima estarão reunidos em Copenhague, capital da Dinamarca, para chegar a um acordo climático global com medidas que impeçam que a temperatura do planeta suba mais do que 2º C – em relação ao período pré-Revolução Industrial – até o final do século.

À primeira impressão, essas decisões parecem atingir apenas os governos e as grandes corporações, mas os impactos não param por aí. Quando questionados sobre que mudanças a COP-15 traria para a vida de cada um de nós, vários especialistas hesitavam em responder – pouca gente está pensando na esfera individual – mas, assim que começavam a falar, as conexões iam se tornando óbvias. O acordo climático global pode afetar diretamente o nosso estilo de vida, o modo como consumimos, a maneira como fazemos uso da energia e dos meios de transporte e, em última instância, a nossa própria sobrevivência.

“Copenhague é uma oportunidade de trazermos mais racionalidade para nossas vidas”, diz o economista Ladislau Dowbor, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e conselheiro do Planeta Sustentável. “Por meio de um acordo internacional, seremos obrigados a reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa e, por isso, teremos que repensar o modo como organizamos os ciclos produtivos e o consumo domiciliar. Mas isso depende, em grande parte, da conscientização das populações, porque não é só por lei que as coisas se transformam”, alerta.

“Poucas pessoas fazem uma relação direta entre o alimento que colocam na mesa, por exemplo, e o aquecimento do planeta, mas, ela existe e cada um de nós vai ter que aprender a verificar sua pegada de carbono e a repensar seus hábitos de vida. Copenhague vai provocar essa discussão em larga escala”, defende Emília Queiroga, vice-presidente da ONG State of the World Forum.

A escritora, co-fundadora do Palas Athena e conselheira do Planeta Sustentável, Lia Diskin, diz que ainda estamos na busca de mecanismos que nos permitam dar continuidade ao estilo de vida que já temos, o que considera um grande equívoco. “Esse modo de vida é insustentável e, me atrevo a dizer, indecente! Eu me recuso a pertencer à parcela de vinte por cento da população que está consumindo oitenta por cento dos recursos do planeta”.

Para o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, que também é conselheiro do Planeta Sustentável, o impacto pós-Copenhague para nossas vidas será enorme. Ele acredita na taxação de atividades e produtos em função da quantidade de gases de efeito estufa emitidos. “A tendência é que todas as questões ligadas ao carbono sejam objeto de regulação, o que vai desde o lixo até o consumo de bens duráveis, incluindo suas cadeias de valor”.

Para atender às metas e compromissos de redução de emissões, vamos precisar de novas tecnologias que facilitem o uso de fontes renováveis de energia, aumentem a eficiência energética, tragam soluções para os meios de transporte que vão além dos combustíveis fósseis e até aproveitem melhor os recursos da floresta. “Com isso, aumentam os investimentos nessas áreas, inclusive com incentivos no setor de educação, o que possibilita a criação de novos profissionais nesses campos e gera oportunidades de inserção em novos mercados, como o de energias renováveis, que cresce entre 30% e 40% ao ano”, observa João Talochi, representante do Greenpeace.

É de se esperar que, daqui para frente, especialmente se as exigências do acordo de Copenhague forem rígidas, surjam novas profissões no mercado e a valorização de novos talentos que possibilitem a aceleração de uma economia de baixo carbono e pequeno impacto ambiental.

Tasso Azevedo, assessor especial do Ministério do Meio Ambiente para assuntos de floresta e clima, ainda afirma que o Brasil é um dos países que mais pode vislumbrar oportunidades no processo de redução de emissões. Entre elas está o desenvolvimento de energias limpas e tecnologias diferenciadas e a geração de novos empregos.

Agora, saiba como sua vida pode mudar, setor por setor, dependendo do que for decidido na COP-15. O que dá para adiantar é que, para que seja feita a redução de emissões de carbono, evidentemente, será preciso contar com a consciência individual e coletiva, mas não se iluda: as medidas vão mexer no bolso de muita gente.

Novos meios de transporte para reduzir emissões

Para diminuir a quantidade de carbono que lançamos na atmosfera, será preciso repensar a maneira como nos locomovemos e o tipo de combustível que utilizamos em nossos veículos. Esse será um dos focos de atenção dos países que estiverem preocupados em reduzir emissões após o acordo climático de Copenhague

Mais energia limpa, menos carbono
Taxação do petróleo e seus derivados, incentivos para o uso de fontes renováveis de energia e até para a geração de fontes antes desconhecidas, como o bagaço de cana e o lixo urbano, são assuntos que farão parte das discussões da 15ª Conferência das Partes, da ONU, em Copenhague, e que podem mudar o cenário energético do mundo

Produzir e comprar em função do carbono
Dependendo do que for acordado em Copenhague, as cadeias produtivas deverão reduzir suas emissões de carbono. Até porque, é bem possível que os produtos sejam taxados em função da quantidade de gases de efeito estufa que emitem. O consumidor será o responsável por fazer que isso realmente aconteça, por meio do seu poder de escolha

Dinheiro para quem não cortar árvores
O pagamento por serviços ambientais prestados é um dos mecanismos que podem ajudar a controlar o aquecimento global. O tema será amplamente debatido em Copenhague e muitos brasileiros podem ser beneficiados com a medida, não apenas com recursos financeiros, mas com a abertura para novos tipos de atividades econômicas na floresta

O dilema dos pobres na redução de emissões
Em países ricos e em desenvolvimento, há pessoas que vivem com menos de um dólar por dia e não têm condições de reduzir emissões e arcar com a conta do aquecimento global. A 15ª Conferência das Partes, da ONU, em Copenhague, no final do ano, também vai precisar discutir essa questão

Um novo ideal para as gerações atuais
Independente do que for decidido em Copenhague, serão os indivíduos os responsáveis pela construção de novos valores e hábitos de vida que podem garantir a sobrevivência humana no planeta por mais tempo, além de estilos de vida mentalmente mais saudáveis. As ONGs e a mídia terão um papel importante nessa transformação

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Alguém ainda dúvida que o Aquecimento Global existe?

A cada dia mais e mais pesquisas demonstram os efeitos do Aquecimento Global: alguém ainda tem dúvidas?

Em especial, a matéria abaixo é muito interessante.

Derretimento no Ártico afeta o mundo inteiro

Por Stephen Leahy, da IPS

Genebra, 03/09/2009 – A cada vez mais quente região polar do Ártico está desestabilizando o clima da Terra de forma que a ciência apenas começa a entender. O mundo inteiro está sendo afetado e, sem medidas urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa pode haver uma catastrófica e irreversível mudança climática, alertam destacados cientistas em um relatório apresentado ontem nesta cidade suíça.

“É fundamental conhecer as consequências do aquecimento do Ártico, e esta é uma revisão sem precedentes” sobre o tema, disse à IPS Martin Sommerkorn, pesquisador e consultor em matéria de alterações climáticas do Fundo Mundial para a Natureza.

“Simplificando: se não mantivermos o Ártico suficientemente frio, em todo o mundo as pessoas vão sofrer as consequências”, resumiu. O aumento superior às extremas alterações climáticas um metro no nível do mar, inundações que afetam um quarto da população e as extremas alterações climáticas é o que nos espera se for mantido o ritmo atual de emissões, alerta o relatório “Reações climáticas do Ártico: implicações globais”.

O aquecimento do Ártico pode ter consequências mais amplas e mais graves do que se acredita, como indicado pelas pesquisas científicas nos últimos três anos, incluindo o próprio estudo do Ano Polar Internacional 2008-2009. “Há uma grande possibilidade de um Ártico aquecido agravar a mudança climática”, disse Sommerkorn, que foi o editor do relatório, elaborado por 10 dos principais especialistas em clima do mundo. As regiões polares são fundamentais para o clima do planeta. Nos últimos 40 anos, o Ártico começou a derreter e as temperaturas a aumentar a um ritmo duas vezes maior do que em qualquer outro lugar do mundo.

A cada verão boreal, o congelado oceano Ártico está derretendo mais e mais, e poderá ficar sem gelo em menos de uma década. Como aconteceria ao abrir a janela de um quarto durante o inverno, os que estão mais próximos seriam os mais afetados, mas, mesmo os mais afastados sofrerão as consequências. O relatório prevê mudanças na temperatura e nos padrões de precipitação na Europa e América do Norte, afetando agricultura, silvicultura e abastecimento de água. “As secas podeão ser pior na Califórnia e no sudoeste norte-americano. Os invernos podem ser mais úmidos no mar Mediterrâneo e mais secos na Escandinávia, se prosseguir o aquecimento no Ártico”, disse Sommerkorn, radicado em Oslo.

Mais alarmante é a probabilidade de que um Ártico mais quente emita grandes quantidades de carbono e metano atualmente abrigados nos solos congelado chamado permafrost, que contêm pelo menos três vezes mais carbono do que o existente na atmosfera. Os níveis atmosféricos de metano, um gás de estufa particularmente potente, aumentou ao longo dos últimos dois anos, e este aumento seria resultado de um aquecimento do permafrost.

O relatório mostra que os primeiros dois ou três metros de gelo permanente ao longo da região do Ártico provavelmente derreterão até 2100. A quantidade de carbono e de metano que pode ser liberada é desconhecida, mas seria mais do que suficiente para elevar a temperatura global ainda mais. “Nós já estamos vendo o derretimento do permafrost em muitas partes do Ártico”, disse Sommerkorn.

Pior ainda é a libertação potencial de vastos depósitos de hidratos de metano (gás natural congelado) sob o oceano Ártico. Em ambientes muito frios ou de alta pressão, as moléculas de metano são presas na água congelada. Quando esta se aquece, o gelo se decompõe e libera o gás. Se for aceso um fósforo sobre o gelo, este literalmente queimará. O metano já está saindo à superfície na costa da leste da Sibéria, de acordo com pesquisas recentes. Esta água, com menos de 50 metros de profundidade, pode superaquecer e liberar metano, embora isto ainda não tenha sido confirmado.

“O que sabemos é que os níveis mundiais de metano aumentaram nos últimos dois ou três anos”, disse Sommerkorn. E as temperaturas no leste siberiano agora estão muito perto das necessárias para que os hidratos derretam. No mês passado, outros pesquisadores descobriram 250 colunas de gás metano saindo do solo marítimo a oeste do arquipélago de Svalbard, no norte da Noruega.

O que o informe não deixa claro se o que acontece no Ártico afeta o resto do mundo, disse o coautor do trabalho, Mark Serreze, pesquisador do Centro Nacional de Informação sobre Neve e Gelo do Estado norte-americano do Colorado. “As mudanças que vivemos não são totalmente inesperadas. Simplesmente estão ocorrendo mais cedo”, afirmou à IPS. Se grandes áreas de permafrost começarem a derreter, “será uma péssima notícia para a humanidade”, ressaltou. “O mundo é um lugar muito pequeno e não fomos bons administradores. A mudança climática é um sintoma desta pobre administração”, disse Serreze.

O informe cobra ações urgentes, como estabelece um teto mundial para as emissões de carbono entre 2013 e 2017 para manter o aquecimento do planeta abaixo dos dois graus centígrados. Isto implica que os países industrializados devem reduzir suas emissões em pelo menos 40$ até 2020 em relação às suas emissões em 1990, e os do Sul em desenvolvimento 30%. “As reduções necessárias são um grande desafio”, reconheceu Sommerkorn.

Porém, os líderes não deveriam duvidar porque proteger o meio ambiente também é uma solução para a crise econômica e a única via para um futuro sustentável, concordam os especialistas. O tratado sobre mudança climática que será negociado em dezembro, em Copenhague, deve responder à urgência exposta no relatório, ressaltaram.

Fonte: Envolverde/IPS

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